“Saúde é o que interessa, o resto não tem pressa!”

“Saúde é o que interessa, o resto não tem pressa!”


Independentemente da sua idade, leitor, você já deve ter ouvido esse bordão de Paulo Cintura em algum momento da sua vida. Esse personagem chamava atenção para cuidados sobre saúde e alimentação, além de incentivar a prática de exercícios físicos. Muitos indíviduos ainda acreditam que exercício físico não é realmente seguro para alguém com o “problema” deles e são exatamente essas pessoas com quem você, amigo fisioterapeuta, terá que reservar alguns minutos de conversa para convidá-los à uma reflexão mais profunda sobre esse tema. O trabalho do professional de saúde que trata de um public doloroso consiste, então, em assegurar que os indivíduos que sofrem de uma dor aguda ou crônica da coluna cervical ou lombar também acreditem que todo resto não precisa de pressa. Entender de uma vez por todas que repouso e remédio não são as únicas saídas para seu problema e que é muito melhor usar seu tempo ganhando saúde do que tratando a doença.
Infelizmente, muitas pessoas recebem informações assustadoras e inapropriadas sobre exercícios físicos e dor. Isso faz com que elas desenvolvam medo, evitação e descondicionamento, além de uma gama de comportamentos dolorosos e mal adaptativos. A prática clínica apresenta aos terapeutas diariamente indivíduos cheios dessas crenças e atitudes, e para fazer jus ao juramento de fisioterapeuta e assegurar aos pacientes o bem-estar físico, psíquico e social, tais fisios precisam vestir seus jalecos de caçadores de mitos. É importante que o fisioterapeuta desenvolva a habilidade de desmitificar crenças negativas através de uma conversa reflexiva, dando sentido à dor do indivíduo, fazendo uma exposição gradual à movimentos e ao retorno à prática de atividade física. Não é fácil, tampouco impossível. Uma receita que costuma funcionar é a seguinte: Tentar permanecer ativo e a evitar o repouso prolongado na cama. Fazer um retorno gradual às atividades cotidianas. É possível achar um equilíbrio entre não se movimentar nada e se movimentar dentro do tolerável. Assim como na recuperação de uma entorse de tornozelo, existe uma diferença entre desconforto/adaptação e dor/incapacidade. Muitas das vezes, precisamos apenas estar mais atentos à quantidade (volume) de movimentos e posturas que adotamos, ao modo como fazemos, e à dar mais tempo para nossos corpos para se acostumar com novas atividades.
Resultado de imagem para saúdeQuando uma forte aliança terapêutica é construída, é possível que o fisioterapeuta promova novas experiências para o paciente e o ajude a resgatar sua confiança. Todos precisam compreender que exercício ajuda a reduzir dor e a prevenir futuros episódios. Eu sei que você deve estar aí agora se perguntando: “mas qual é o melhor exercício para quem sofre de dor lombar?” Certo? E eu não hesito em responder, e torço para que todos os meus colegam também respondam, que é aquele que o indivíduo for capaz de fazer, ser regular e sentir prazer (falando em prazer, lembre-se que muitas pessoas deixam inclusive de ter atividade sexual com medo da dor!). Por exemplo, caminhar, correr, andar de bicicleta, nadar, praticar yoga e pilates têm efeitos semelhantes para dor lombar e são igualmente seguros. Por que excluir dessa lista atividades como musculação, cross fit, ginástica, capoeira, futebol, entre outras? Sabe-se que o exercício físico reduz quase que pela metade o risco de recorrência de lombalgia. Então, você terapeuta liberte-se de orientações sem evidência e você paciente recupere prazer e segurança na sua prática da sua atividade física preferida.

Quanto mais frequente for a prática da atividade física preferida, melhor. Plante e ajude pessoas a colher os múltiplos benefícios do exercício. Porém, fiquem atentos: Nem todos moram em cidades com condições perfeitas e seguras para se exercitarem ou ainda possuem condições financeiras para tal. Logo, sempre considerem a perspectiva de cada indíviduo e orientem da melhor maneira possível.
Abraços! Até breve!



Texto: Jessica Fernandes | Colaborada Dor e Coluna | Instagram: @dorecoluna

Inteligência Artificial na Saúde

Inteligência Artificial na Saúde


O futuro chegou. Seja muito bem-vindo! Avanços nas áreas de computação, tecnologia e informação ditam o período vivido pela humanidade atualmente: a chamada Quarta Revolução Industrial, marcada pela convergência de tecnologias digitais, físicas e biológicas. Robôs já substituem humanos em diversas funções; a expectativa é de que, até 2020, mais de cinco milhões de pessoas tenham perdido seus postos de trabalho para máquinas, e o mercado de softwares, hardwares e serviços relacionados a Inteligência
Artificial (IA) vai alcançar 47 BILHÕES de dólares.

Resultado de imagem para inteligencia artificialA IA é uma área da computação que propõe criar sistemas que simulem a capacidade humana de pensar, perceber, tomar decisões e resolver problemas. De que forma? Uma máquina é capaz de armazenar, relacionar e analisar em tempo recorde uma quantidade de informações infinitamente além da capacidade humana, introduzindo um novo nível de colaboração entre homem e máquina, o que ampliará o acesso a informação e solucionará problemas atuais e futuros. Esta interação é aprimorada pelo feedback dos usuários desta tecnologia, trazendo níveis de especificidade e personalização ao serviço.

No entanto, é possível que a IA seja utilizada em todas as áreas de forma segura? Ela vem ganhando destaque na área da Saúde, com a promessa de revolucionar o cuidado dos pacientes. Há algum tempo, pensava-se em máquinas de “auto-atendimento” em corredores de clínicas e hospitais, e robôs realizando procedimentos em centros cirúrgicos. Os grandes avanços, entretanto, estão nos sistemas de reconhecimento de padrões em um grande conjunto de dados a respeito de uma patologia, facilitando prevenção, diagnóstico e tomadas de decisão.

Na prática, imagine se o profissional da Saúde pudesse prever a ocorrência de uma parada cardíaca através de dados recebidos de um dispositivo móvel usado pelo paciente, ou que a precisão dos diagnósticos fosse aumentada pelo incremento na base de dados, ou ainda que as pesquisas sobre sinais e sintomas em sites de buscas fossem monitoradas e indicassem um quadro grave, levando a comunicação da equipe médica com aquele indivíduo. Pois bem, tudo isso já acontece sem nos darmos conta do tamanho da revolução tecnológica na área da Saúde, e traz imensuráveis benefícios e avanços aos pacientes e profissionais. Porém, em tempos em que toda e qualquer informação disponível em um sistema torna-se vulnerável, é provável e extremamente válido o questionamento sobre a segurança do uso da IA: privacidade, segurança e direções sobre futuro desta tecnologia podem ser assegurados? Ainda, sabendo que a população de baixa renda e alta vulnerabilidade socioeconômica é a que apresenta maiores fatores de risco para mortalidade precoce, é extremamente controverso que essa tecnologia não esteja disponível com fácil acesso para essa parcela populacional, abrindo uma grande lacuna nos resultados obtidos pelo uso da IA. E por último, mas não menos importante, o grande potencial de erro profissional induzido por um algoritmo falho. Mesmo que a AI demonstre taxas de sucesso em relação a outras abordagens, não é (e nunca será) perfeita; e erros, não importa o quão raros sejam, conduzirão percepções significativamente negativas do uso desta tecnologia.

Podemos concluir, então, que a tecnologia na Saúde vive um paradoxo: grandes investimentos de capital versus resultados não proporcionais. Para que essa relação torne-se mais equilibrada, é imprescindível a combinação da IA com a inteligência humana, ou a chamada “inteligência aumentada”, sendo provavelmente a abordagem mais poderosa para alcançar esta missão fundamental a despeito dos cuidados na área da Saúde.


Texto: Thaís Bortolini Bueno | Colaborada Dor e Coluna | Instagram: @dorecoluna

Estamos realmente falando em Saúde?

Olá leitor


Estamos realmente falando em Saúde? O filósofo da suspeita Friedrich Wilhelm Nietzsche (1844-1900) emite seu parecer sobre saúde: A objeção, o desvio, a desconfiança alegre, a vontade de troçar são sinais de saúde: tudo o que é absoluto pertence à patologia. Essa percepção nietzscheana faz-me lembrar mais dum conceito do que duma categoria. Sempre é válido lembrar de que um conceito trata-se, do que se trata, ou, do que é algo [definição], já categoria, como diria o professor Ernesto von Rückert, é o tipo de realidade que se enquadra algo que foi ou pode ser definido. Incorro no risco de soar delirante, mas é preciso entender que a saúde, como a entendemos nesse universo ocidental, tem hoje (2019) uma definição [geralmente utilizamos a definição da WHO], mas torna-se ao mesmo tempo uma categoria quando esse conceito metamorfoseia-se de 1977 [Boorse] para a definição que utilizamos nos dias atuais. Da simples ausência de doença ou enfermidade [Boorse] para um estado de completo bem-estar físico, mental e social, não apenas a ausência de doença ou enfermidade [Nordenfelt]. O escritor maldito, para alguns, Eduardo Galeano certa feita escreveu: A utopia está lá no horizonte. Me aproximo dois passos, ela se afasta dois passos. Caminho dez passos e o horizonte corre dez passos. Por mais que eu caminhe, jamais alcançarei. Para que serve a utopia? Serve para isso: para que eu não deixe de caminhar. Nossa utopia em saúde nos fez e faz caminhar. Digo utopia pois “um estado de completo bemestar […]” torna-se impossível de se alcançar, mas nos move, e manter o mundo girando é algo importantíssimo, mas ao conceituar ou categorizar de forma equivocada a saúde, todo um sistema pode gerar ações falhas. Se não entendemos bem a saúde, como poderíamos entender seus desdobramentos positivos ou negativos? No séc. XVI havia diagnósticos de doenças que existiam apenas na mente dos escravistas do sul dos Estados Unidos da América, como a Drapetomia que classificava o desejo de fuga do escravo como uma doença mental tratada com açoites, para além de outras excrescências como a Disestesia Etiópica também tratada com a chibata curativa do branco para corrigir a falta de motivação da mercadoria negra para o trabalho. Como objeto-primo temos a vida, afinal mortos ou mesmo doença. O indivíduo vivo [infelizmente] não é um ente isolado, mas também não nos compararemos aos superorganismos dos coletivos de formigas, e como elementos dum conjunto maior temos certas similaridades para o bem ou para o mal. Exemplificando: a elevadíssima prevalência da dor musculoesquelética no Brasil/mundo.

Se a dor for considerada um desdobramento ruim dum corpo vivo que já não cumpre a exigência ditatorial do estado de completo bem-estar, podemos entender que os sujeitos que estão nesse subconjunto não tem saúde. No caso no Brasil temos a população total do estado de São Paulo (44 846 530 de habitantes) somada a População do estado do Rio de Janeiro (16 690 709 de habitantes) [IBGE – 2016]. Pelo menos 60 000 000 de habitantes no Brasil sem saúde. Isso é possível? [não estamos levando em consideração outros eventos que implicam na quebra da cláusula única da saúde] Há possibilidades duma vida livre de miséria, vícios, iniquidade, discriminação, violência, opressão, desigualdade social e guerra? Esses são essencialmente problemas de vida quotidiana. Constatou-se que a desigualdade na distribuição da renda, por exemplo, é prejudicial como um todo e não somente para os menos favorecidos. Ou seja, mais riqueza individual não necessariamente pode ser traduzida como melhorias nas condições de saúde dum grupo mais abastado. O que garantiria isso, em partes, seria uma distribuição de renda mais igualitária, mas ainda sim existiriam problemáticas, mais discretas naturalmente, que impediriam as pessoas de alcançar a saúde plena, baseado no conceito da WHO. Novos debates científicos, afirmam que cada definição de saúde deve conter pelo menos 09 características para funcionar bem dentro do campo científico clínico.

1. A saúde deve estar além da ausência de doenças ou enfermidades e dos parâmetros biofísicos para evitar o velho reducionismo bem estabelecido da medicina;

2. A saúde deve ser conceituada como uma capacidade, um conjunto de capacidades;

3. A saúde deve ser vista como um processo contínuo, iterativo e dinâmico, e não como um estado que alcance;

texto 1
Foto: Det sjunde inseglet (O Sétimo Selo] é um filme sueco de 1956, do gênero drama, escrito e dirigido por Ingmar Bergman. Sinopse: após dez anos, um cavaleiro retorna das Cruzadas e encontra o país devastado pela peste negra. Sua fé em Deus é sensivelmente abalada e enquanto reflete sobre o significado da vida, a Morte surge à sua frente querendo levá-lo, pois chegou sua hora. Objetivando ganhar tempo, convida-a para um jogo de xadrez que decidirá se ele parte com a Morte ou não. Tudo depende da sua vitória no jogo e a Morte concorda com o desafio, já que não perde nunca.

4. A saúde deve ser potencialmente alcançável para todos na vida real, em todas as circunstâncias, em todas as idades, independentemente do status cultural, socioeconômico, racial ou religioso, para evitar tornar-se uma utopia;

5. A saúde deve incluir tanto mal-estar quanto bem-estar. A inclusão do mal-estar em uma definição de saúde é estratégica para contrastar a medicalização da sociedade e reduzir o viés cultural para considerar a saúde como uma condição ideal: permite ter expectativas realistas sobre ela e ser saudável mesmo quando se está lidando com eventos negativos;

6. A saúde deve superar as abordagens que visem o individual, porque ela não pode mais ser considerada uma propriedade de um indivíduo abstrato independente dum contexto vivo, mas, ao mesmo tempo, a saúde não pode ser reduzida somente a um resultado de determinantes sociais;

7. A saúde deve ser independente do um discurso moral e ético, mesmo que seja inevitável que cada definição de saúde seja uma expressão implícita de determinadas normas socioculturais;

8. A saúde deve basear-se nas prioridades, valores, necessidades, aspirações e objetivos de uma pessoa . Rejeitando uma perspectiva nomotética falaciosa (a crença de resolver efetivamente um problema ao nomeá-lo) que visa encontrar leis gerais que expliquem fenômenos de saúde para todos os indivíduos;

9. A saúde deve ser operacional e mensurável por processos claros, concretos e definidos para se tornar um conceito útil em situações reais. Baseado nessas 09 premissas, no ano de 2018 Fabio Leonardi define que “em termos mais operacionais, a saúde pode ser conceituada como a capacidade de reagir a todos os tipos de eventos ambientais, tendo as respostas emocionais, cognitivas e comportamentais desejadas e evitando aquelas indesejáveis”. Antes de pensar em dor, pensemos em saúde e façamos uma análise do que rumo essa prosa anda tomando e sejamos críticos quanto a nossas ações.

Por Igor Caio Santana de Andrade Fisioterapeuta e joalheiro amador.


Texto: Igor Caio Santana deAndrade | meu amigo e colaborador do blog Dor e Coluna | Instagram: @dorecoluna

Não se afobe, não…

Olá leitor,


Quem nunca sofreu uma dor de cabeça, resfriado, diarréia, febre, cansaço, ou ainda, tristeza?

Esses episódios são comuns no decorrer da vida da maioria das pessoas, assim como dores na coluna. Em algum momento de suas vidas, cerca de 90% das pessoas irão apresentar um episódio de dor na coluna lombar, popularmente chamada de dor nas costas. Sendo assim, as dores lombares não devem ser consideradas como algo raro ou sério.
Resultado de imagem para apressadoEm média uma dor lombar pode melhorar espontaneamente entre 6 a 8 semanas, sem ajuda de qualquer profissional de saúde. Chamamos esse fenômeno de história natural da doença, onde observamos como é a evolução do indivíduo desde o aparecimento do sintoma até sua recuperação. Esse dado não deveria ser ignorado ou menosprezado pelos pacientes e muito menos pelos profissionais de saúde. Logo, se é algo muito comum e com bom prognóstico (boa evolução), é mais útil nos motivarmos a tentar compreender os gatilhos para a dor lombar e entender e modificar o comportamento dos indivíduos do que gastar energia e rios de dinheiro em programas ou orientações para prevenir a dor lombar.
A dor lombar pode se tornar persistente e incapacitante, fazendo com que as pessoas fiquem muito tempo preocupadas, angustiadas, com medo ou evitando de se exporem à prática de exercícios físicos ou mesmo de atividades rotineiras ou, ainda, levando ao afastamento do trabalho. Isso leva a maioria das pessoas a procurar ajuda de profissionais de saúde, como médicos e fisioterapeutas.
Recentemente, estudos científicos vem demonstrando que muitos dos tratamentos oferecidos não são tão eficazes quanto pensávamos ou ainda adequados e, muitas vezes, podem ser caros e prejudiciais. Se a dor não se resolve imediatamente, as pessoas se desesperam, procuram atendimento emergencial e acabam sendo orientadas a fazer uso de medicamentos e a realizar uma gama de testes e exames.
Uma considerável parte das pessoas com dor lombar acredita que exames como raio X ou ressonância magnética nuclear podem identificar a causa de suas dores. Na maioria dos casos, através de uma boa avaliação clínica, é possível identificar sinais e sintomas que possam sugerir doença grave. Um pequeno grupo, apenas 1% das pessoas com dores lombares, apresenta doenças graves (como por exemplo, tumores, infecções, fraturas) e necessita ser submetido à uma minuciosa investigação e a buscar tratamentos mais específicos.
Outra crença bastante comum é o uso de fármacos. No país onde existe a cultura da farmácia acessível, onde muitas vezes existe mais de uma farmácia por quarteirão (!!!) e onde todo vizinho ou amigo receita aquele remédio infalível, é muito frequente observarmos o uso e abuso de analgésicos, anti-inflamatórios e até mesmo, opióides, medicamentos que atuam no sistema nervoso central e podem causar danos e dependência, apesar de nenhum medicamento ter se mostrado eficaz a longo prazo no acelerador de recuperação.
A idéia central aqui é a de que não devemos nos apressar para buscar tratamentos milagrosos. Como já disse Chico Buarque, “não se afobe, não que nada é pra já”. Leva tempo, requer paciência, regularidade na prática de exercícios físicos, manutenção de um estilo de vida saudável e ganho de confiança e resiliência da população em geral. Se manter ativo, dormir bem, adotar um lazer e buscar controlar o estresse parecem agrupar fatores de um bom enfrentamento para um mal que uma hora ou outra irá nos acometer. E tudo bem! Faz parte da vida! Que deve ser vivida e não sofrida!

Então se você está sentindo uma dor lombar aguda nesse exato momento, evite o repouso total. Movimente-se dentro do que você tolera e é capaz de realizar nesse momento. No nosso próximo encontro, irei falar sobre exercícios físicos e dor lombar. Até breve.


Texto: Jéssica Fernandez | Colaborada Dor e Coluna | Instagram: @dorecoluna

Não entendo o que o profissional da Saúde fala. E agora?

Olá leitor,


“Edema”, “sutura”, “cefaleia”, “prognóstico”, “fibra muscular”?

Resultado de imagem para dúvidaFrequentemente, pacientes sentem dificuldades para entender a linguagem utilizada pelos profissionais da Saúde – médicos, fisioterapeutas, enfermeiros, dentistas, educadores físicos… O que deveria ser uma conversa entre ambos, acaba se tornando frustração e insatisfação por parte do paciente, gerando uma ansiedade negativa em torno das possibilidades de tratamento. Ruídos de comunicação na relação terapêutica são preditivos de insucesso no tratamento, pois impedem a troca de informação entre o paciente e o profissional que o atende:

1.) O paciente não entende seu diagnóstico, tampouco o tratamento proposto. Enxerga- se em um ambiente hostil, onde não se sente à vontade para tirar dúvidas e fazer parte ativamente do processo. Frente a isso, não se torna colaborativo;
2.) O profissional da Saúde faz um atendimento assimétrico e hierarquizado, deixando de avaliar importantes aspectos psicossociais de alta relevância clínica.

Falhas como estas podem ocorrer por desconforto social ou falta de interesse de uma ou ambas as partes, no entanto é mais frequente por parte dos profissionais. Estudos mostram que, quanto mais aprimoramento técnico há por parte de estudantes de Medicina, por exemplo, menor a prática das habilidades de comunicação com o paciente. Outro trabalho revela que médicos clínicos e cirurgiões tendem a superestimar sua capacidade de se comunicar, tornando a linguagem inacessível na maioria dos casos. Podem, ainda, serem citadas inúmeras estatísticas que mostram o pobre envolvimento do paciente por parte dos profissionais nas tomadas de decisão e baixo índice de discussão de alternativas para o tratamento. Fato é que uma boa comunicação entre paciente e profissional está diretamente relacionada a bons resultados em relação a saúde do paciente, pois permite que ele participe mais ativamente do tratamento, principalmente porque entende com clareza os fatores desencadeantes de seu quadro, bem como modificar positivamente tal situação. Pacientes interessados tem uma maior auto eficácia, ou seja, maior capacidade de auto gerenciamento de seu quadro. Isso tende a aumentar ainda mais quando o paciente está bem orientado e tem fácil acesso ao profissional que o acompanha. Não é apenas um direito, mas também fundamental enquanto participação ativa do paciente que ele expresse suas queixas e preocupações
ao profissional da Saúde. Este, por outro lado, tem o dever de estabelecer uma escuta atenta e livre de julgamentos – mesmo que a fala não mostre relação direta com o quadro do paciente.

VOCÊ, PACIENTE, pode ser proativo e iniciar um bom diálogo com o seu profissional da Saúde. Experimente!


Texto: Thaís Bortolini Bueno | Colaborada Dor e Coluna | Instagram: @dorecoluna

Efeitos específicos versus efeitos não específicos, onde você está?

Tradução livre: Msc. Ft. Leonardo Avila | @dorecoluna | Centro Especializado em Dor e Coluna – Florianópolis | Santa Catarina.

Link original (Publicado em  porClique aqui!


Ultimamente tem havido muitas discussões em relação aos efeitos específicos e não específicos quando nos referimos aos tratamentos e resultados com nossos pacientes. O pêndulo oscila muito entre as diferentes perspectivas que as pessoas têm sobre esse assunto. Uma alternativa, talvez, não seja um ou outro, mas o quanto é difícil distinguir entre os dois efeitos. Criando uma definição para esses dois termos, será  de grande utilidade ao tentar descomplicar esses dois conceitos.

Primeiramente, vamos falar sobre efeitos não específicos.

Os efeitos não específicos costumam ser chamados de placebo, o que é tecnicamente incorreto. Placebo é uma substância ou tratamento de nenhum valor pretendido, como uma pílula de açúcar. Um placebo pode produzir efeitos não específicos que são os efeitos placebo ou nocebo (os efeitos placebo são as respostas positivas, os efeitos nocebo são as respostas negativas) que ocorrem dentro de um tratamento que não são atribuídos aos efeitos específicos do tratamento. Mais comumente, isso se refere a qualquer efeito que uma pessoa possa ter de um tratamento que esteja no grupo de controle do placebo. Provavelmente há sempre múltiplos efeitos acontecendo, daí a razão do termo plural (efeitos não específicos) ser usado e não a forma singular (efeito não-específico). Alguns dos vários efeitos que podem ser encontrados são expectativas, respostas condicionadas, sistemas de recompensa, mudanças nos estados emocionais e outros. Reconhecer que sempre que alguém é exposto a outra pessoa associada a tratamento ou a qualquer item relacionado a uma intervenção, é impossível não ter efeitos não específicos no contexto da situação. Embora os efeitos não específicos sejam rotulados como “não específicos”, reconheçamos que agora compreendemos mudanças neurobiológicas específicas que ocorrem durante vários efeitos placebo e nocebo. Pode-se começar a notar que a nossa definição está começando a se tornar mais nítida com efeitos não-específicos com potenciais efeitos específicos. Assim, prefiro o termo efeitos contextuais ao invés de efeitos não específicos, pois esses efeitos são baseados no contexto em que o tratamento é entregue.

Portanto, com a nossa definição de efeitos não específicos alterados para efeitos contextuais, deixe-me passar para a definição de efeitos específicos.

Efeitos específicos são “apenas” os efeitos específicos da intervenção. Reconhecemos que os medicamentos têm efeitos específicos sobre os receptores no corpo e, assim, geram uma resposta de maneira previsível; ou se recrutamos um músculo através do exercício, ele responde de uma maneira esperada, MAIS OU MENOS. Antes de tentar explicar meu “ponto de vista”, deixe-me lembrar a todos que muitas vezes ainda não reconhecemos ou compreendemos totalmente os vários mecanismos específicos pelos quais uma terapia considera eficaz funciona. Um exemplo seria o ópio, enquanto é um analgésico forte; todos os seus mecanismos específicos pelos quais ele trabalha ainda são desconhecidos no momento. Então, se eles são desconhecidos, podemos nos perguntar o quão específico ele é?

Como afirmei quando se trata de drogas e exercícios, os efeitos específicos conhecidos devem responder de maneira específica, mas eles não respondem exatamente da mesma forma todas as vezes. Assim, justificando o “MAIS OU MENOS” no parágrafo anterior. Isto é devido a dois motivos principais. Primeiro, conforme o exemplo do ópio e muitas de nossas intervenções, não entendemos todos os mecanismos específicos envolvidos até o momento. Assim, não podemos prever exatamente todos os efeitos específicos que ocorrem. Segundo, outra coisa que torna a resposta a tratamentos com efeitos específicos variáveis é que os efeitos contextuais sempre entram em um tratamento. Lembre-se de que o tratamento nunca é entregue no “vácuo” a uma pessoa que não tenha qualquer forma de consciência, portanto efeitos não específicos (contextuais) entrarão na equação.

A outra fator que gera confusão é rotular um tratamento como tendo efeitos específicos ou não específicos é que ele cria uma noção de que os dois são opostos exatos. O debate sobre o efeito específico e não específico, se um tratamento é um ou outro, é um pouco errôneo. Sabemos agora que não é mente ou corpo, é ambos. Não é natureza ou criação, é ambos. Não é biológico ou psicológico, é ambos. Nós não podemos separá-los. Um tratamento como um medicamento ou exercício que são frequentemente referidos como intervenções com efeitos específicos, também têm efeitos não específicos conhecidos. Um tratamento que é visto apenas como o uso de um cristal de energia não específico, por exemplo, cria efeitos específicos dentro do cérebro. Não muito diferente do que ocorre com o ópio, mostrando que não compreendemos a nossa neurobiologia na íntegra. Portanto, rotular um tratamento como um ou outro é problemático.

O que sabemos é que os tratamentos criarão um efeito. Alguns tratamentos terão pouco ou nenhum efeito, enquanto outros produzirão um grande efeito. Para bons resultados, escolher tratamentos com efeitos grandes e consistentes é melhor do que pequenos ou nenhum efeito.

Alguns tratamentos tradicionalmente rotularam efeitos específicos que entendemos e alguns mecanismos nesses efeitos específicos que não entendemos. Precisamos ser honestos e francos com nossos pacientes, o que fazemos em relação a efeitos e mecanismos específicos conhecidos e desconhecidos. Todos os tratamentos rotularam tradicionalmente efeitos não específicos ou o que eu prefiro chamar de efeitos contextuais. Estes podem produzir muitos efeitos específicos diferentes que têm muitas interações das quais não compreendemos totalmente os múltiplos mecanismos pelos quais eles atuam.

Há um debate em ambos os lados no que diz respeito ao estudo dos efeitos contextuais, alguns dizem que por serem tão variáveis ​​e com muitas interações, são tão consistentes que não devemos estudá-los, desta forma, devemos nos ater apenas aos efeitos específicos. Outros argumentam que, como todos os tratamentos têm efeitos contextuais, devemos compreendê-los melhor para que possamos maximizá-los. Penso que o debate sobre este tópico é importante à medida que continuamos a trabalhar para descomplicar, isto é, dismistificar o que fazemos durante nossos tratamentos e fornecer uma linguagem consistente para explicar e comunicar nossos pontos e prováveis mecanismos de ação.

O que você tem a dizer?

Em qual lado você está no debate sobre efeitos específicos e não específicos (efeitos contextuais)?


Sem ciência não há educação e não existe saúde. Desta forma, cabe aos amantes da ciência aproximar o distanciamento e estreitar o relacionamento entre os pesquisadores (a bancada), os clínicos e a sociedade. O nosso silêncio custa caro para a sociedade. Ele pode custar vidas e permitir com que pseudociências (falsas ciências) perpetuem.

Comecei a tomar e não parei: Quem está monitorando os meus remédios para dor? (Dor e opioides | Parte 3)

Olá leitor,

Parte III (final)| Dando continuidade a publicação anterior, busquei escrever de forma simples os efeitos adversos mais comuns devido ao uso prolongado de analgésicos opióides. Para entender o texto abaixo sugiro ler a parte I e II.

Espero que essa informação chegue a você em tempo.


Mas você deve estar pensando: O que usar já que esse medicamento é a única coisa que me ajuda?

Apesar da recomendação geral, existe um pequeno grupo de pessoas com dor crônica persistente que podem se beneficiar do uso de opióides. Para melhores esclarecimentos é preciso conversar sobre alguns assuntos com que está lhe orientando. Abaixo seguem os assuntos mais indicados:

  1. Após algumas semanas tomando o remédio a sua dor melhora?
  2. Você tem se sentindo pior após usar esse tipo de remédio?
  3. Você consegue está mais ativo e voltou a fazer exercícios após usar os remédios?
  4. Ultimamente você precisou aumentar a dose do remédio?
  5. O que você pode fazer para melhorar a sua qualidade de vida além de tomar os remédios?
  6. Usar esse remédio é o melhor tratamento?
  7. Qual é a dose mais baixa e eficaz que você pode tomar?
  8. A longo prazo, doses menores podem ser ainda mais eficazes do que doses maiores?
  9. Os remédios estão causando efeitos colaterais, como intestino preso e náuseas?
  10. Você está tomando outros remédios que podem causar reações junto a esses?
  11. Você bebe álcool (o que pode aumentar o risco de efeitos colaterais devido ao uso dos remédios)?
  12. Você já teve problemas com o uso excessivo de outras drogas no passado? (Se já teve, você pode estar vulnerável a ter problemas com esses remédios).
  13. Você fuma ou já fumou?
  14. Você sabia que (fumantes) usuários ou ex-usuários de nicotina têm um risco muito maior de desenvolver problemas com analgésicos opioides?

Por fim, espero que tenha ficado claro o quanto o uso desse tipo de remédio pode afetar a sua dor. Muitas vezes tomamos remédios sem ter conhecimento dos resultados adversas e quando percebemos já estamos envolvidos com os seus efeitos colaterais.

Converse com o seu clínico. Às vezes o melhor remédio é parar com o remédio.


Sem ciência não há educação e não existe saúde. Desta forma, cabe aos amantes da ciência aproximar o distanciamento e estreitar o relacionamento entre os pesquisadores (a bancada), os clínicos e a sociedade. O nosso silêncio custa caro para a sociedade. Ele pode custar vidas e permitir com que pseudociências (falsas ciências) perpetuem.