Efeitos específicos versus efeitos não específicos, onde você está?

Tradução livre: Msc. Ft. Leonardo Avila | @dorecoluna | Centro Especializado em Dor e Coluna – Florianópolis | Santa Catarina.

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Ultimamente tem havido muitas discussões em relação aos efeitos específicos e não específicos quando nos referimos aos tratamentos e resultados com nossos pacientes. O pêndulo oscila muito entre as diferentes perspectivas que as pessoas têm sobre esse assunto. Uma alternativa, talvez, não seja um ou outro, mas o quanto é difícil distinguir entre os dois efeitos. Criando uma definição para esses dois termos, será  de grande utilidade ao tentar descomplicar esses dois conceitos.

Primeiramente, vamos falar sobre efeitos não específicos.

Os efeitos não específicos costumam ser chamados de placebo, o que é tecnicamente incorreto. Placebo é uma substância ou tratamento de nenhum valor pretendido, como uma pílula de açúcar. Um placebo pode produzir efeitos não específicos que são os efeitos placebo ou nocebo (os efeitos placebo são as respostas positivas, os efeitos nocebo são as respostas negativas) que ocorrem dentro de um tratamento que não são atribuídos aos efeitos específicos do tratamento. Mais comumente, isso se refere a qualquer efeito que uma pessoa possa ter de um tratamento que esteja no grupo de controle do placebo. Provavelmente há sempre múltiplos efeitos acontecendo, daí a razão do termo plural (efeitos não específicos) ser usado e não a forma singular (efeito não-específico). Alguns dos vários efeitos que podem ser encontrados são expectativas, respostas condicionadas, sistemas de recompensa, mudanças nos estados emocionais e outros. Reconhecer que sempre que alguém é exposto a outra pessoa associada a tratamento ou a qualquer item relacionado a uma intervenção, é impossível não ter efeitos não específicos no contexto da situação. Embora os efeitos não específicos sejam rotulados como “não específicos”, reconheçamos que agora compreendemos mudanças neurobiológicas específicas que ocorrem durante vários efeitos placebo e nocebo. Pode-se começar a notar que a nossa definição está começando a se tornar mais nítida com efeitos não-específicos com potenciais efeitos específicos. Assim, prefiro o termo efeitos contextuais ao invés de efeitos não específicos, pois esses efeitos são baseados no contexto em que o tratamento é entregue.

Portanto, com a nossa definição de efeitos não específicos alterados para efeitos contextuais, deixe-me passar para a definição de efeitos específicos.

Efeitos específicos são “apenas” os efeitos específicos da intervenção. Reconhecemos que os medicamentos têm efeitos específicos sobre os receptores no corpo e, assim, geram uma resposta de maneira previsível; ou se recrutamos um músculo através do exercício, ele responde de uma maneira esperada, MAIS OU MENOS. Antes de tentar explicar meu “ponto de vista”, deixe-me lembrar a todos que muitas vezes ainda não reconhecemos ou compreendemos totalmente os vários mecanismos específicos pelos quais uma terapia considera eficaz funciona. Um exemplo seria o ópio, enquanto é um analgésico forte; todos os seus mecanismos específicos pelos quais ele trabalha ainda são desconhecidos no momento. Então, se eles são desconhecidos, podemos nos perguntar o quão específico ele é?

Como afirmei quando se trata de drogas e exercícios, os efeitos específicos conhecidos devem responder de maneira específica, mas eles não respondem exatamente da mesma forma todas as vezes. Assim, justificando o “MAIS OU MENOS” no parágrafo anterior. Isto é devido a dois motivos principais. Primeiro, conforme o exemplo do ópio e muitas de nossas intervenções, não entendemos todos os mecanismos específicos envolvidos até o momento. Assim, não podemos prever exatamente todos os efeitos específicos que ocorrem. Segundo, outra coisa que torna a resposta a tratamentos com efeitos específicos variáveis é que os efeitos contextuais sempre entram em um tratamento. Lembre-se de que o tratamento nunca é entregue no “vácuo” a uma pessoa que não tenha qualquer forma de consciência, portanto efeitos não específicos (contextuais) entrarão na equação.

A outra fator que gera confusão é rotular um tratamento como tendo efeitos específicos ou não específicos é que ele cria uma noção de que os dois são opostos exatos. O debate sobre o efeito específico e não específico, se um tratamento é um ou outro, é um pouco errôneo. Sabemos agora que não é mente ou corpo, é ambos. Não é natureza ou criação, é ambos. Não é biológico ou psicológico, é ambos. Nós não podemos separá-los. Um tratamento como um medicamento ou exercício que são frequentemente referidos como intervenções com efeitos específicos, também têm efeitos não específicos conhecidos. Um tratamento que é visto apenas como o uso de um cristal de energia não específico, por exemplo, cria efeitos específicos dentro do cérebro. Não muito diferente do que ocorre com o ópio, mostrando que não compreendemos a nossa neurobiologia na íntegra. Portanto, rotular um tratamento como um ou outro é problemático.

O que sabemos é que os tratamentos criarão um efeito. Alguns tratamentos terão pouco ou nenhum efeito, enquanto outros produzirão um grande efeito. Para bons resultados, escolher tratamentos com efeitos grandes e consistentes é melhor do que pequenos ou nenhum efeito.

Alguns tratamentos tradicionalmente rotularam efeitos específicos que entendemos e alguns mecanismos nesses efeitos específicos que não entendemos. Precisamos ser honestos e francos com nossos pacientes, o que fazemos em relação a efeitos e mecanismos específicos conhecidos e desconhecidos. Todos os tratamentos rotularam tradicionalmente efeitos não específicos ou o que eu prefiro chamar de efeitos contextuais. Estes podem produzir muitos efeitos específicos diferentes que têm muitas interações das quais não compreendemos totalmente os múltiplos mecanismos pelos quais eles atuam.

Há um debate em ambos os lados no que diz respeito ao estudo dos efeitos contextuais, alguns dizem que por serem tão variáveis ​​e com muitas interações, são tão consistentes que não devemos estudá-los, desta forma, devemos nos ater apenas aos efeitos específicos. Outros argumentam que, como todos os tratamentos têm efeitos contextuais, devemos compreendê-los melhor para que possamos maximizá-los. Penso que o debate sobre este tópico é importante à medida que continuamos a trabalhar para descomplicar, isto é, dismistificar o que fazemos durante nossos tratamentos e fornecer uma linguagem consistente para explicar e comunicar nossos pontos e prováveis mecanismos de ação.

O que você tem a dizer?

Em qual lado você está no debate sobre efeitos específicos e não específicos (efeitos contextuais)?


Sem ciência não há educação e não existe saúde. Desta forma, cabe aos amantes da ciência aproximar o distanciamento e estreitar o relacionamento entre os pesquisadores (a bancada), os clínicos e a sociedade. O nosso silêncio custa caro para a sociedade. Ele pode custar vidas e permitir com que pseudociências (falsas ciências) perpetuem.

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