Não se afobe, não…

Olá leitor,


Quem nunca sofreu uma dor de cabeça, resfriado, diarréia, febre, cansaço, ou ainda, tristeza?

Esses episódios são comuns no decorrer da vida da maioria das pessoas, assim como dores na coluna. Em algum momento de suas vidas, cerca de 90% das pessoas irão apresentar um episódio de dor na coluna lombar, popularmente chamada de dor nas costas. Sendo assim, as dores lombares não devem ser consideradas como algo raro ou sério.
Resultado de imagem para apressadoEm média uma dor lombar pode melhorar espontaneamente entre 6 a 8 semanas, sem ajuda de qualquer profissional de saúde. Chamamos esse fenômeno de história natural da doença, onde observamos como é a evolução do indivíduo desde o aparecimento do sintoma até sua recuperação. Esse dado não deveria ser ignorado ou menosprezado pelos pacientes e muito menos pelos profissionais de saúde. Logo, se é algo muito comum e com bom prognóstico (boa evolução), é mais útil nos motivarmos a tentar compreender os gatilhos para a dor lombar e entender e modificar o comportamento dos indivíduos do que gastar energia e rios de dinheiro em programas ou orientações para prevenir a dor lombar.
A dor lombar pode se tornar persistente e incapacitante, fazendo com que as pessoas fiquem muito tempo preocupadas, angustiadas, com medo ou evitando de se exporem à prática de exercícios físicos ou mesmo de atividades rotineiras ou, ainda, levando ao afastamento do trabalho. Isso leva a maioria das pessoas a procurar ajuda de profissionais de saúde, como médicos e fisioterapeutas.
Recentemente, estudos científicos vem demonstrando que muitos dos tratamentos oferecidos não são tão eficazes quanto pensávamos ou ainda adequados e, muitas vezes, podem ser caros e prejudiciais. Se a dor não se resolve imediatamente, as pessoas se desesperam, procuram atendimento emergencial e acabam sendo orientadas a fazer uso de medicamentos e a realizar uma gama de testes e exames.
Uma considerável parte das pessoas com dor lombar acredita que exames como raio X ou ressonância magnética nuclear podem identificar a causa de suas dores. Na maioria dos casos, através de uma boa avaliação clínica, é possível identificar sinais e sintomas que possam sugerir doença grave. Um pequeno grupo, apenas 1% das pessoas com dores lombares, apresenta doenças graves (como por exemplo, tumores, infecções, fraturas) e necessita ser submetido à uma minuciosa investigação e a buscar tratamentos mais específicos.
Outra crença bastante comum é o uso de fármacos. No país onde existe a cultura da farmácia acessível, onde muitas vezes existe mais de uma farmácia por quarteirão (!!!) e onde todo vizinho ou amigo receita aquele remédio infalível, é muito frequente observarmos o uso e abuso de analgésicos, anti-inflamatórios e até mesmo, opióides, medicamentos que atuam no sistema nervoso central e podem causar danos e dependência, apesar de nenhum medicamento ter se mostrado eficaz a longo prazo no acelerador de recuperação.
A idéia central aqui é a de que não devemos nos apressar para buscar tratamentos milagrosos. Como já disse Chico Buarque, “não se afobe, não que nada é pra já”. Leva tempo, requer paciência, regularidade na prática de exercícios físicos, manutenção de um estilo de vida saudável e ganho de confiança e resiliência da população em geral. Se manter ativo, dormir bem, adotar um lazer e buscar controlar o estresse parecem agrupar fatores de um bom enfrentamento para um mal que uma hora ou outra irá nos acometer. E tudo bem! Faz parte da vida! Que deve ser vivida e não sofrida!

Então se você está sentindo uma dor lombar aguda nesse exato momento, evite o repouso total. Movimente-se dentro do que você tolera e é capaz de realizar nesse momento. No nosso próximo encontro, irei falar sobre exercícios físicos e dor lombar. Até breve.


Texto: Jéssica Fernandez | Colaborada Dor e Coluna | Instagram: @dorecoluna

Não entendo o que o profissional da Saúde fala. E agora?

Olá leitor,


“Edema”, “sutura”, “cefaleia”, “prognóstico”, “fibra muscular”?

Resultado de imagem para dúvidaFrequentemente, pacientes sentem dificuldades para entender a linguagem utilizada pelos profissionais da Saúde – médicos, fisioterapeutas, enfermeiros, dentistas, educadores físicos… O que deveria ser uma conversa entre ambos, acaba se tornando frustração e insatisfação por parte do paciente, gerando uma ansiedade negativa em torno das possibilidades de tratamento. Ruídos de comunicação na relação terapêutica são preditivos de insucesso no tratamento, pois impedem a troca de informação entre o paciente e o profissional que o atende:

1.) O paciente não entende seu diagnóstico, tampouco o tratamento proposto. Enxerga- se em um ambiente hostil, onde não se sente à vontade para tirar dúvidas e fazer parte ativamente do processo. Frente a isso, não se torna colaborativo;
2.) O profissional da Saúde faz um atendimento assimétrico e hierarquizado, deixando de avaliar importantes aspectos psicossociais de alta relevância clínica.

Falhas como estas podem ocorrer por desconforto social ou falta de interesse de uma ou ambas as partes, no entanto é mais frequente por parte dos profissionais. Estudos mostram que, quanto mais aprimoramento técnico há por parte de estudantes de Medicina, por exemplo, menor a prática das habilidades de comunicação com o paciente. Outro trabalho revela que médicos clínicos e cirurgiões tendem a superestimar sua capacidade de se comunicar, tornando a linguagem inacessível na maioria dos casos. Podem, ainda, serem citadas inúmeras estatísticas que mostram o pobre envolvimento do paciente por parte dos profissionais nas tomadas de decisão e baixo índice de discussão de alternativas para o tratamento. Fato é que uma boa comunicação entre paciente e profissional está diretamente relacionada a bons resultados em relação a saúde do paciente, pois permite que ele participe mais ativamente do tratamento, principalmente porque entende com clareza os fatores desencadeantes de seu quadro, bem como modificar positivamente tal situação. Pacientes interessados tem uma maior auto eficácia, ou seja, maior capacidade de auto gerenciamento de seu quadro. Isso tende a aumentar ainda mais quando o paciente está bem orientado e tem fácil acesso ao profissional que o acompanha. Não é apenas um direito, mas também fundamental enquanto participação ativa do paciente que ele expresse suas queixas e preocupações
ao profissional da Saúde. Este, por outro lado, tem o dever de estabelecer uma escuta atenta e livre de julgamentos – mesmo que a fala não mostre relação direta com o quadro do paciente.

VOCÊ, PACIENTE, pode ser proativo e iniciar um bom diálogo com o seu profissional da Saúde. Experimente!


Texto: Thaís Bortolini Bueno | Colaborada Dor e Coluna | Instagram: @dorecoluna

Efeitos específicos versus efeitos não específicos, onde você está?

Tradução livre: Msc. Ft. Leonardo Avila | @dorecoluna | Centro Especializado em Dor e Coluna – Florianópolis | Santa Catarina.

Link original (Publicado em  porClique aqui!


Ultimamente tem havido muitas discussões em relação aos efeitos específicos e não específicos quando nos referimos aos tratamentos e resultados com nossos pacientes. O pêndulo oscila muito entre as diferentes perspectivas que as pessoas têm sobre esse assunto. Uma alternativa, talvez, não seja um ou outro, mas o quanto é difícil distinguir entre os dois efeitos. Criando uma definição para esses dois termos, será  de grande utilidade ao tentar descomplicar esses dois conceitos.

Primeiramente, vamos falar sobre efeitos não específicos.

Os efeitos não específicos costumam ser chamados de placebo, o que é tecnicamente incorreto. Placebo é uma substância ou tratamento de nenhum valor pretendido, como uma pílula de açúcar. Um placebo pode produzir efeitos não específicos que são os efeitos placebo ou nocebo (os efeitos placebo são as respostas positivas, os efeitos nocebo são as respostas negativas) que ocorrem dentro de um tratamento que não são atribuídos aos efeitos específicos do tratamento. Mais comumente, isso se refere a qualquer efeito que uma pessoa possa ter de um tratamento que esteja no grupo de controle do placebo. Provavelmente há sempre múltiplos efeitos acontecendo, daí a razão do termo plural (efeitos não específicos) ser usado e não a forma singular (efeito não-específico). Alguns dos vários efeitos que podem ser encontrados são expectativas, respostas condicionadas, sistemas de recompensa, mudanças nos estados emocionais e outros. Reconhecer que sempre que alguém é exposto a outra pessoa associada a tratamento ou a qualquer item relacionado a uma intervenção, é impossível não ter efeitos não específicos no contexto da situação. Embora os efeitos não específicos sejam rotulados como “não específicos”, reconheçamos que agora compreendemos mudanças neurobiológicas específicas que ocorrem durante vários efeitos placebo e nocebo. Pode-se começar a notar que a nossa definição está começando a se tornar mais nítida com efeitos não-específicos com potenciais efeitos específicos. Assim, prefiro o termo efeitos contextuais ao invés de efeitos não específicos, pois esses efeitos são baseados no contexto em que o tratamento é entregue.

Portanto, com a nossa definição de efeitos não específicos alterados para efeitos contextuais, deixe-me passar para a definição de efeitos específicos.

Efeitos específicos são “apenas” os efeitos específicos da intervenção. Reconhecemos que os medicamentos têm efeitos específicos sobre os receptores no corpo e, assim, geram uma resposta de maneira previsível; ou se recrutamos um músculo através do exercício, ele responde de uma maneira esperada, MAIS OU MENOS. Antes de tentar explicar meu “ponto de vista”, deixe-me lembrar a todos que muitas vezes ainda não reconhecemos ou compreendemos totalmente os vários mecanismos específicos pelos quais uma terapia considera eficaz funciona. Um exemplo seria o ópio, enquanto é um analgésico forte; todos os seus mecanismos específicos pelos quais ele trabalha ainda são desconhecidos no momento. Então, se eles são desconhecidos, podemos nos perguntar o quão específico ele é?

Como afirmei quando se trata de drogas e exercícios, os efeitos específicos conhecidos devem responder de maneira específica, mas eles não respondem exatamente da mesma forma todas as vezes. Assim, justificando o “MAIS OU MENOS” no parágrafo anterior. Isto é devido a dois motivos principais. Primeiro, conforme o exemplo do ópio e muitas de nossas intervenções, não entendemos todos os mecanismos específicos envolvidos até o momento. Assim, não podemos prever exatamente todos os efeitos específicos que ocorrem. Segundo, outra coisa que torna a resposta a tratamentos com efeitos específicos variáveis é que os efeitos contextuais sempre entram em um tratamento. Lembre-se de que o tratamento nunca é entregue no “vácuo” a uma pessoa que não tenha qualquer forma de consciência, portanto efeitos não específicos (contextuais) entrarão na equação.

A outra fator que gera confusão é rotular um tratamento como tendo efeitos específicos ou não específicos é que ele cria uma noção de que os dois são opostos exatos. O debate sobre o efeito específico e não específico, se um tratamento é um ou outro, é um pouco errôneo. Sabemos agora que não é mente ou corpo, é ambos. Não é natureza ou criação, é ambos. Não é biológico ou psicológico, é ambos. Nós não podemos separá-los. Um tratamento como um medicamento ou exercício que são frequentemente referidos como intervenções com efeitos específicos, também têm efeitos não específicos conhecidos. Um tratamento que é visto apenas como o uso de um cristal de energia não específico, por exemplo, cria efeitos específicos dentro do cérebro. Não muito diferente do que ocorre com o ópio, mostrando que não compreendemos a nossa neurobiologia na íntegra. Portanto, rotular um tratamento como um ou outro é problemático.

O que sabemos é que os tratamentos criarão um efeito. Alguns tratamentos terão pouco ou nenhum efeito, enquanto outros produzirão um grande efeito. Para bons resultados, escolher tratamentos com efeitos grandes e consistentes é melhor do que pequenos ou nenhum efeito.

Alguns tratamentos tradicionalmente rotularam efeitos específicos que entendemos e alguns mecanismos nesses efeitos específicos que não entendemos. Precisamos ser honestos e francos com nossos pacientes, o que fazemos em relação a efeitos e mecanismos específicos conhecidos e desconhecidos. Todos os tratamentos rotularam tradicionalmente efeitos não específicos ou o que eu prefiro chamar de efeitos contextuais. Estes podem produzir muitos efeitos específicos diferentes que têm muitas interações das quais não compreendemos totalmente os múltiplos mecanismos pelos quais eles atuam.

Há um debate em ambos os lados no que diz respeito ao estudo dos efeitos contextuais, alguns dizem que por serem tão variáveis ​​e com muitas interações, são tão consistentes que não devemos estudá-los, desta forma, devemos nos ater apenas aos efeitos específicos. Outros argumentam que, como todos os tratamentos têm efeitos contextuais, devemos compreendê-los melhor para que possamos maximizá-los. Penso que o debate sobre este tópico é importante à medida que continuamos a trabalhar para descomplicar, isto é, dismistificar o que fazemos durante nossos tratamentos e fornecer uma linguagem consistente para explicar e comunicar nossos pontos e prováveis mecanismos de ação.

O que você tem a dizer?

Em qual lado você está no debate sobre efeitos específicos e não específicos (efeitos contextuais)?


Sem ciência não há educação e não existe saúde. Desta forma, cabe aos amantes da ciência aproximar o distanciamento e estreitar o relacionamento entre os pesquisadores (a bancada), os clínicos e a sociedade. O nosso silêncio custa caro para a sociedade. Ele pode custar vidas e permitir com que pseudociências (falsas ciências) perpetuem.

Dor lombar no Brasil e no mundo: Epidemiologia

Sem ciência não há educação e não existe saúdeDesta forma, cabe aos amantes da ciência aproximar o distanciamento e estreitar o relacionamento entre os pesquisadores (a bancada), os clínicos e a sociedade. O nosso silêncio custa caro para a sociedade. Ele pode custar vidas e permitir com que pseudo-ciências (falsas ciências) perpetuem.

Desta forma, de modo sucinto, vamos trazer à tona e com linguajar acessível, maiores informações aos colegas da área da saúde e população dados enquanto a dor e dor lombar.

Inicialmente, você sabia que a dor lombar encontra-se entre os maiores problemas de saúde pública no Brasil e no mundo (GBD; 2015)?

Segundo um estudo epidemiológico publicado no periódico The Lancet (1999) a dor lombar afeta aproximadamente 80% da população em alguma etapa da vida, tendo um predomínio em mulheres quando comparado aos homens, na faixa etária entre 40-80 anos de idade.

Uma revisão sistemática publicada em 2012 por Hoy e colaboradores mostrou que aproximadamente 12% dos pacientes relatam limitações (incapacidade) devido à dor na coluna lombar por um período maior que um dia e 23%, por mais de um mês. Segundo dados da Global Burden of Disease Study (GBD; 2015) a dor lombar é o problema de saúde que causa mais anos de vida vividos com incapacidade (desde 1990 até a última revisão em 2015 – um ranking que nenhuma injuria gostaria de estar liderando). 

No entanto, em torno de 90% dos pacientes que apresentam dor lombar aguda recuperam-se em seis semanas, e somente 5%permanecem sintomáticos podendo desenvolver dor crônica, sendo esta responsável por 80% de afastamento do trabalho (Van Tulder et al., 2006).

Os dados acima confirmam os achados atuais. Fiz questão de citar no texto estudos da última década com a intenção de mostrar que o problema não é de hoje. Cabe a reflexão.

É preciso dialogar e nos aproximar da população.

Afinal, você sabia?

MsC. Leonardo Avila, Fisioterapeuta | Centro Especializado em Dor e Coluna – Florianópolis | SC (48) 99909-9363 – Instagram: @dorecoluna