Dor e analgésicos opióides: os efeitos adversos do uso prolongado.

Olá leitor,

Parte II | Dando continuidade a publicação anterior, busquei escrever de forma simples os efeitos adversos mais comuns devido ao uso prolongado de analgésicos opióides.

Espero que essa informação chegue a você em tempo.


Os analgésicos opióides também conhecidos como narcóticos, por serem derivados do ópio (extraído da flor da papoula), assim como grande parte dos fármacos comercializados, podem causar inúmeros efeitos adversos (colaterais), desde os mais comuns tais como tontura, vômito, coceira e constipação aos mais graves levando os pacientes a óbito. Sim, os opióides podem levar a morte. Segundo dados recentes, nos Estados Unidos morrem ao ano mais pessoas com overdose (excesso de uso) de analgésicos opióides do quê consumidores de heroína e metanfetamina. O excesso de uso de opióides, junto a combinação com outros medicamentos pode ser letal. Anualmente, são mais de 700.000 hospitalizações devido ao uso indiscriminado de opióides. No Brasil, não existem dados específicos enquanto ao uso indiscriminado dessa droga. No entanto, acredita-se que não seja diferente dos dados alarmantes mundiais.

Mesmo que esses dados sejam surpreendentes a você paciente ou curioso, até o momento eu não deveria estar escrevendo nenhuma novidade aos clínicos. Teoricamente, para nós esse assunto é comum, ou ao menos deveria ser comum aos profissionais da área da saúde que lidam com a dor persistente de seus pacientes. O que me motivou a escrever essa sequência de publicações sobre “Dor e Opióides” dividida em três parte foi a necessidade de lhe alertar sobre um achado “”recente”.

Eu vou começar a contar essa “novidade” a partir de dois nomes que talvez você não esteja familiarizado (a):

  • Resistência ou tolerância ao uso de opióides, e;
  • Hiperalgesia reflexa ao uso de opióides.

Afinal, o que esses nomes significam?

Descomplicando, quando se toma analgésicos opióides por mais de algumas semanas você pode se tornar resistente a medicação além de aumentar a sua dor.

Quando você toma analgésicos opióides o seu cérebro reduz ou até interrompe o ciclo natural de produção das suas próprias substâncias analgésicas opióides para aliviar a sua dor.

Ou seja, quanto mais medicação opióide você ingerir, menor será a produção de opióides naturais pelo cérebro. Você está inibindo as substâncias naturais que o seu cérebro é capaz de produzir.

Estudos científicos mostram que analgésicos opióides são capazes de alterar a estrutura (morfologia) do seu cérebro após apenas 4 semanas de uso contínuo (regular) de opióides.

Simplificando, é como se o cérebro de uma pessoa que usa opióides com frequência fosse desligado, isto é, parasse de fabricar os seus próprios medicamentos naturais (fisiológicos) por que está recebendo uma quantidade muito grande de outra forma (externa).

Saiba que existe algo ainda mais curioso: Os opióides naturais que nosso cérebro produz são muito mais fortes do quê aqueles que são comercializados. Na realidade, eles são 18 a 33 vezes mais fortes além de não causarem os efeitos adversos e levar a morte.

Para finalizar a segunda etapa sobre o uso indiscriminado de opióides, precisamos conversar sobre dois “fenônemos” que ocorrem devido ao uso excessivo.

É preciso saber que as nossas células do sistema nervoso não se sentem bem com o excesso de analgésicos opióides. Elas reagem de modo aversivo. As células que recebem os opiódes no sistema nervoso tem a sua função prejudicada e reduzida, podendo até diminuir a sua quantidade. Sendo assim, após essas alterações, o opióde analgésico, seja o produzido pelo seu cérebro ou ingerido através do comprimido não alivia mais a sua dor.

Desta forma, surge um fenômeno quando os analgésicos opióides param de ser eficazes e você automaticamente sente que necessita aumentar as doses diárias, cada vez mais. Esse fenômeno é chamado de: “Resistência ou tolerância aos opióides”.

E além da resistência ou tolerância aos opióides, quando os medicamentos aumentam a sua dor, existe um outro fenômeno chamado de “Hiperalgesia induzida por opióides.”

Questione o seu clínico.

Busque informações adequadas para o manejo eficaz dos seus sintomas.


Sem ciência não há educação e não existe saúde. Desta forma, cabe aos amantes da ciência aproximar o distanciamento e estreitar o relacionamento entre os pesquisadores (a bancada), os clínicos e a sociedade. O nosso silêncio custa caro para a sociedade. Ele pode custar vidas e permitir com que pseudociências (falsas ciências) perpetuem.

Dor e opióides: A origem.

Olá leitor,


Parte I | Na história, basicamente tudo o que é descrito possui uma origem. Com os opióides a história não foi diferente.

Desta forma, a história dos opióides como drogas que modulam a dor também teve a sua gênese  em 1867 por um homem chamado Friedrich Adam Serturner (Paderborn, 19 de junho de 1783 — Hamelin, 20 de fevereiro de 1841), um farmacêutico alemão, famoso por descobrir e isolar os produtos químicos derivados da planta da papoula para aliviar a dor. Para esse farmacêutico alemão ter certeza que os produtos químicos funcionavam, ele fez alguns experimentos consigo e com alguns jovens. Desta forma, Friedrich confirmou a eficácia da droga, mesmo que após o uso ele apresentasse algumas  visões alucinógenas. Devido a essas visões, ele batizou a droga de “morphium” assim como o deus dos sonhos, Morpheus, segundo a mitologia grega. Mas, devido ao processo de cultivo da papoula (planta) ser trabalhoso e árduo, um outro pesquisador chamado Marshall Gates Jr. (1915–2003), um químico norte-americano, em 1952, descobriu como desenvolver esses produtos químicos derivados da papoula de forma sintética, em um laboratório onde ministrava aulas e realizava pesquisas científicas (Universidade de Rochester). Uma vez que essa poderosa droga para o alívio da dor pudesse ser facilmente produzida, os pacientes começaram a usá-las de forma indiscriminada, assim como o açúcar é utilizado atualmente. Na verdade, essa metáfora é uma realidade, essa droga já foi comercializada na forma de pirulitos. Os pirulitos de fentanil foram usados em hospitais para crianças e para soldados em campo de batalha. A título de curiosidade, no ano de 2008, a empresa farmacêutica Cephalon se declarou culpada de uma acusação criminal e pagou US$ 425 milhões em multas por marketing inadequado de seus produtos, o tal pirulito a base de ópio descrito acima.

Medicamentos à base de opióides (como a morfina) tornaram-se padrão ouro no manejo da dor de paciente com câncer assim como em pós operatórios. Sendo assim, esses medicamentos começaram a ser usados para outros tipos de dor, tais como a dor nas costas e outra dores musculoesquelética.

Curiosamente, aos que gostam de assistir seriados, você lembra do Doctor House, ele era viciado em Vicodin (contém um derivado da papoula).

Infelizmente, nas últimas décadas (20 anos), esses medicamentos ficaram cada vez mais populares, isto é, de fácil acesso. E recentemente os pesquisadores fizeram algumas descobertas chocantes e perturbadoras devido a exposição crônica, ou seja, o uso prolongado dessa droga.

Leitor, você imagina qual seja a descoberta?


Sem ciência não há educação e não existe saúde. Desta forma, cabe aos amantes da ciência aproximar o distanciamento e estreitar o relacionamento entre os pesquisadores (a bancada), os clínicos e a sociedade. O nosso silêncio custa caro para a sociedade. Ele pode custar vidas e permitir com que pseudo-ciências (falsas ciências) perpetuem.

Uma anormalidade normal: É possível?

Olá, leitor.

Previamente ao início desse texto, gostaria de conceitualizar duas palavras que serão citadas com frequência.

Espero que a leitura seja agradável e proveitosa.


A título de curiosidade, segue:

O que é normal?

Conceitualmente, normal pode ser definido como:

1- Conforme a norma, a regra; regular que é usual, comum; natural.

E anormal, qual é a definição?

Conceitualmente, anormal pode ser definido como:

1 – Que desvia claramente de uma norma (diz-se de manifestação, comportamento, vivência etc.); que ou o que está fora da norma; diferente, irregular; que ou o que gera surpresa ou inquietação pelo seu caráter imprevisto ou inexplicável; excepcional, insólito.

E como poderíamos explicar uma anormalidade normal, isto é, uma normalidade que foge um padrão mas continua sendo considerada normal?

Essa explicação é um grande desafio na prática clínica de profissionais que atendem pessoas com sintomas persistentes, isto é, paciente crônicos. Em especial, pacientes com dores músculoesqueléticas.

Pacientes crônicos trazem consigo uma enorme carga informativa devido a sua busca incessante, às vezes durando 5, 10, 15 anos, por um diagnóstico e possíveis abordagens para reduzir os seus sintomas.

Parte dessa carga informativa obtida pelos pacientes crônicos tem como origem os profissionais da área da saúde, que por encargo, deveriam estar proporcionado auxílio eficaz. Entre idas e vindas à hospitais, clínicas e consultórios uma série de possíveis diagnósticos e prováveis fatores causais, melhor dizendo, a origem dos seus sintomas são transmitidos aos pacientes.

Apesar disso, a busca não finaliza na última ida ao consultório. O alívio proposto é momentâneo, os sintomas reduzidos logo retornarão. As recidivas tardam, mas retornam. Mais uma tentativa por parte do pacientes dentre tantas outras já realizadas.

Onde está a falha?

Parte das abordagens propostas, em sua maioria, são baseadas em possíveis danos patoanatômicos. Facilitando, podemos entender como danos patoanatômicos, possíveis alterações relacionadas à estrutura, anatomia e biomecânica.

No entanto, evidências científicas nas últimas décadas tem nos mostrado uma menor ausência de correlação entre a dor percebida pelo paciente e um dano tecidual a medida que os sintomas persistem, ou melhor, quanto mais tempo de dor, menor a relação com um dano tecidual. Confira maiores informações sobre o tema acessando esse link: A comum incompatibilidade entre dano tecidual e dor.

Para propormos uma abordagem menos prejudicial a esses pacientes, voltamos a pergunta que incitou a necessidade dessa publicação: Como poderíamos explicar uma anormalidade normal aos pacientes?

Um exemplo clássico, no consultório, é a associação errônea realizada pelos profissionais da área da saúde entre os achados em exames de imagens, por exemplo os achados numa ressonância magnética, como sendo os prováveis causadores da dor desses pacientes.

Esses achados em exames de imagem ao apresentarem uma anormalidade, geralmente são associados à prováveis prejuízos aos pacientes, e como sendo o fator gerador dos seus sintomas.

Contudo, segundo evidências científicas, essas associações estão equivocadas.

A associação entre achados “anormais” corriqueiros, isto é, classificados como anormais, no entanto, já esperados e uma possível causalidade (causa e efeito com a dor percebida pelo paciente) traz inúmeros prejuízos aos pacientes e sistema de saúde. Parte desses prejuízos podemos colocar na conta dos excessos de diagnósticos seguidos de execessos de tratamentos baseados numa abordagem equivocada ao associarmos os sintomas do paciente com os achados descritos num laudo de exame de imagem. Confira maiores informações sobre o tema acessando esse link: Não tema o inespecífico. Dor de “origem inespecífica” também é diagnóstico.

Portanto, os achados em exames de imagem devem ser interpretados no contexto da condição clínica do paciente. Desta forma, tratando-se de conceitos, espero ter deixado claro que existem anormalidades normais.


Sem ciência não há educação e não existe saúde. Desta forma, cabe aos amantes da ciência aproximar o distanciamento e estreitar o relacionamento entre os pesquisadores (a bancada), os clínicos e a sociedade. O nosso silêncio custa caro para a sociedade. Ele pode custar vidas e permitir com que pseudo-ciências (falsas ciências) perpetuem.

A compreensão de um conceito | “Deseducar”para reeducar: você está apto?

Olá, leitor

Previamente ao início da leitura dessa breve publicação, para um maior domínio e compreensão do conteúdo descrito, sugiro a leitura das últimas publicações já disponíveis nessa página, tendo em vista que os assuntos são contínuos.


A palavra compreensão é um substantivo feminino que pode significar a faculdade de entender, de perceber o significado de algo; entendimento, ou o perfeito domínio intelectual de um assunto;

Já a palavra conceito é um substantivo masculino que pode significar a compreensão que alguém tem de uma palavra; noção, concepção, ideia. “seu c. de moral é antiquado”

Desta forma, a ausência de compreensão de um conceito, torna a informação final e o entendimento abstratos (seja o paciente e/ou clínico).


Os pacientes que estão com dor, especialmente aqueles com dor crônica, estão frequentemente interessados ​​em aprender (compreender) mais sobre as causas e mediadores de sua experiência dolorosa*.

Já é sabido que o modelo biomédico (SAB model) comumente usados ​​em Fisioterapia e Medicina (para explicar a dor), incluindo (S) estrutura, (A) anatomia e (B) biomecânica, são insuficientes para explicar algumas das complexas questões da dor; tais como a sensibilização central, sensibilização periférica, inibição, facilitação, neuroplasticidade, etc. Além disso, está bem documentado que o modelo biomédico pode induzir medo e ansiedade aos pacientes, o que pode alimentar ainda mais o medo e a evitação (fear avoidence) e a catastrofização da dor, além de alimentar a busca incessante por parte dos clínicos e pacientes visando encontrar o fator causal da dor. Essa busca incessante, decorre numa cascata de adventos prejudiciais ao paciente e sistema de saúde já bem documentados pela ciência e descrito em publicações anteriores nesse blog, segue: Prejuízos causados pelos excessos de diagnósticos e tratamentos

Por outro lado, na contra-mão do modelo biomédico (SAB model), a educação em dor com base em neurociência, amparada por inúmeros estudos científicos, visa ensinar (educar, explicar, habilitar) mais aos pacientes sobre sua experiência de dor, numa perspectiva biológica e fisiológica, adotando assim, cada vez mais a abordagem biopsicossocial, isto é, além do patoanatômico.

Desta forma, ao aprender o conceito, a compreensão por parte do paciente torna-se mais acessível e o entendimento em relação ao seu caso menos abstrato. A nitidez e clareza da informação final aos pacientes são imprescindíveis para um melhor desfecho dos seus casos.

Isto é, não somente aos pacientes com dor crônica. Existem muitos profissionais crônicos, viciados em hábitos e modelos de saúde antigos que necessitam com urgência modificar seus comportamentos. Caso contrário, continuarão a alimentar a cascata de prejuízos aos pacientes e sistema de saúde com suas condutas duvidosas.

Por fim, a questão em jogo é;

“Deseducar”para reeducar: Você está apto?

*Entenda-se apto como: Capacitado, isto é, munido de conhecimento para um dado fim.


Sem ciência não há educação e não existe saúde. Desta forma, cabe aos amantes da ciência aproximar o distanciamento e estreitar o relacionamento entre os pesquisadores (a bancada), os clínicos e a sociedade. O nosso silêncio custa caro para a sociedade. Ele pode custar vidas e permitir com que pseudo-ciências (falsas ciências) perpetuem.

A COMUM incompatibilidade entre dano tecidual e dor.

Dor e achados em exames de imagem: Existe causalidade?


Olá, leitor

Previamente ao início da leitura dessa breve publicação, para um maior domínio e compreensão do conteúdo descrito, sugiro a leitura das três últimas publicações já disponíveis nessa página intituladas:

1- Dor lombar no Brasil e no mundo: Epidemiologia;

2- Para reduzir a prevalência de dor crônica é preciso reconceitualizar a Dor e o seu manejo (“tratamento”); e

3- Não tema o inespecífico: Dor de origem inespecífica, ou seja, sem causa patoanatômica definida também é diagnóstico.


A comum incompatibilidade entre dano tecidual e dor é sustentada por uma série de estudos que mostram a ausência de causalidade entre achados em exames de imagem e dor, ou seja, pacientes assintomáticos apresentam as mesmas alterações degenerativas, decorrentes do processo de envelhecimento fisiológico não, necessariamente, estando relacionadas à dor.  Portanto, os achados em exames de imagem devem ser interpretados no contexto da condição clínica do paciente, isto é, através de uma abordagem baseada em mecanismos da dor (Chimenti et al., ‎2018).

 

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Isto posto, justifica-se a necessidade de uma maior compreensão dos clínicos e pacientes enquanto a ausência

de causalidade entre dor e achados em exames de imagem, e o quanto abordagens baseadas nessa eventual causalidade são prejudiciais ao sistema de saúde e pacientes.

Desta forma, é necessário que o profissional da área da saúde tenha ciência do quão prejudicial sua abordagem tem sido retratada segundo evidências atuais ao rotular seus pacientes com diagnósticos excessivos (overdiagnosis) desprovidos de fundamentação científica, baseados numa relação causal (causa e efeito) eventual (menos de 10% dos casos quando nos referimos a coluna). Abordagem essa, capaz de desencadear uma cascata de prejuízos ao paciente (overtreatment) e sistema de saúde (descrito nessa publicação: Impactos econômicos, sociais e psicológicos..).

Em suma, é como se o profissional da área da saúde afirmasse que a dor nas costas do paciente ou em outro segmento ocorra tão somente devido ao que que foi encontrado em um exame de imagem, uma correlação que não é causalidade, isto é, não é verdadeiro (vulgarmente conhecido como falso). Outros exemplos de correlações falsas, ou seja, por obra do acaso, estão disponíveis em alguns estudos no link a seguir: Correlações falsas

Não sejamos coniventes. Aos colegas da área da saúde e pacientes, cabe a reflexão.


Sem ciência não há educação e não existe saúde. Desta forma, cabe aos amantes da ciência aproximar o distanciamento e estreitar o relacionamento entre os pesquisadores (a bancada), os clínicos e a sociedade. O nosso silêncio custa caro para a sociedade. Ele pode custar vidas e permitir com que pseudo-ciências (falsas ciências) perpetuem.

Não tema o inespecífico: Dor de origem inespecífica, ou seja, sem causa patoanatômica definida também é diagnóstico.

Olá, leitor

Previamente ao início da leitura dessa breve publicação, para um maior domínio e compreensão do conteúdo descrito, sugiro a leitura das duas últimas publicações já disponíveis nessa página intituladas:

1- Dor lombar no Brasil e no mundo: Epidemiologia, e;

2- Para reduzir a prevalência de dor crônica é preciso reconceitualizar a Dor e o seu manejo (“tratamento”).


A título de curiosidade, segue:

Você sabia que apesar de a dor lombar ser tão prevalente, ainda não é possível estabelecer uma causa anatomopatológica em grande parte dos casos (90% das dores lombares são de origem inespecífica). Por isso, o termo dor lombar inespecífica (DLI) é comumente usado na literatura científica. Além disso, existem fortes indícios de que a dor lombar crônica inespecífica (DLCI) esteja associada com uma complexa interação de fatores além do anatomopatológico, ou seja, condições não anatômicas que agem como gatilho para que você sinta dor nas costas.

Com o objetivo de elucidar e trazer à tona esses fatores, segue parte das condições não voltadas a anatomia (estrutura) que estão associadas com a presença de dor nas costas de origem inespecífica (DLCI) – dados com base na literatura científica contemporânea:

  • Fatores físicos (padrões de movimento mal adaptativos, esquema corporal alterado, comportamento doloroso e perda de condicionamento);
  • Fatores cognitivos (crenças inadequadas, catastrofismo, hipervigilância, estratégias mal adaptativas de enfrentamento, baixa auto-eficácia);
  • Fatores psicológicos (medo, ansiedade, depressão);
  • Fatores de estilo de vida (inatividade física, problemas de sono, estresse crônico);
  • Fatores neurofisiológicos (sensibilização do sistema nervoso periférico e central) e;
  • Fatores sociais (status socioeconômico, família, trabalho e cultura).

Isto posto, evidências científicas atuais contemplam a influência dos fatores biopisicossociais no manejo da dor lombar inespecíficaDesta forma, faz-se necessário a investigação e abordagem desses fatores na prática clínica do Fisioterapeuta quando treinado e capacitado para tal. Ademais, estudos suportam que a abordagem biopsicossocial, contemplando fatores biológicos (patoanatômicos) e psicossociais é superior a tratamentos que incluem exercícios isolados, “monototerapias” e/ou programas baseados exclusivamente em causas estruturais (patoanatômicas) para a DLCI decorrendo em redução da dor, melhora na incapacidade e qualidade de vida, além da redução dos gastos públicos no serviço de saúde primário internacional devido as recidivas em um espaço de até 24 meses.


Sem ciência não há educação e não existe saúde. Desta forma, cabe aos amantes da ciência aproximar o distanciamento e estreitar o relacionamento entre os pesquisadores (a bancada), os clínicos e a sociedade. O nosso silêncio custa caro para a sociedade. Ele pode custar vidas e permitir com que pseudo-ciências (falsas ciências) perpetuem.

 

Referências bibliográficas:

  • Zusman. M., Belief reinforcement: one reason why costs  for low back pain have not decreased. Journal of Multidisciplinary Healthcare 2013:6
  • Pain. 2015 Jun; 156(6): 1003–1007. Published online 2015 Mar 14. doi:  10.1097/j.pain.0000000000000160 MCID: PMC4450869VClassification o chronic pain for ICD-11
  • Treedea  R. Detlef, Riefb Winfried, Barke A. Antonia et. al. Classification of chronic pain for ICD-11 June 2015·Volume 156·Number 6
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  • O’Sullivan P. It’s time for change with the management of non-specific chronic low back pain. Br J Sports Med. 2012;46(4):224-227. doi:10.1136/bjsm.2010.081638.
  • Synnoot A., O`Keefee., Bunzli S. et al. Physiotherapists may stigmatise or feel unprepared to treat people with low back pain and psychossocial factors that influence recovery: a systematic review. Journal of Physiotherapy, 2015.
  • DELITTO A.; GEORGE Steven Z.; DILLEN LINDA VAN. et al. Low Back Pain Clinical Practice Guidelines Linked to the International Classification of Functioning, Disability, and Health from the Orthopaedic Section  of the American Physical Therapy Association J Orthop Sports Phys Ther. 2012;42(4):A1-A57.
  • Soegaard R., Christensen F. Binn. Lumbar spinal fusion patients’ demands to the primary health sector: evaluation of three rehabilitation protocols. A prospective randomized study. Eur Spine J (2006) 15: 648–656
  • Fersum K. Vibe, O’Sullivan P., Skouen J.S.,et al.Efficacy of classification-based cognitive functional therapy in patients with non-specific chronic low back pain: A randomized controlled Trial. r J Pain (2012) © 2012 European Federation of International Association for the Study of Pain Chapters
  • Ng L, Caneiro JP, Campbell A, Smith A, Burnett A, O’Sullivan Cognitive functional approach to manage low back pain in male adolescent rowers: a randomised controlled trial [with consumer summary British Journal of Sports Medicine 2015 Sep;49(17):1125-1131
  • O’Sullivan P A classification based cognitive functional approach to managing nonspecific chronic low back pain J Orthop Sports Phys Ther 2012;24:A17– 21.

 

Os impactos econômicos, sociais e psicológicos das abordagens no manejo da dor lombar devem ser considerados e revistos na prática clínica para a sustentabilidade do sistema de saúde.

Os impactos econômicos das abordagens no manejo da dor lombar devem ser considerados e revistos na prática clínica para a sustentabilidade do sistema de saúde.

A dor lombar encontra-se entre os maiores problemas de saúde pública no Brasil e no mundo, sendo a principal causa de anos vividos com incapacidade (Global Burden Disease, 2015).

Estudos mostram que cerca de um terço dos pacientes que apresentam dores nas costas são orientados a realizar exames de imagem, aumentando os custos com as solicitações e posteriores excessos de diagnósticos (overdiagnosis) e excessos de tratamento (overtreatment). Ambos, decorrem em prejuízos ao sistema de saúde e riscos ao paciente, tais como exposição à radiação, excesso de medicamentos, injeções epidurais, intervenções cirúrgicas e persistência dos sintomas que diz respeito a 5% dos casos que podem desenvolver dor crônica sendo esta responsável por 80% de afastamento do trabalho (Van Tulder M. 2006; Deyo R., 2009; NHMRC, 2015).

Segundo a American College of Radiologia (ACR) e o Instituto Nacional Europeu para Excelência em Saúde e Cuidados (NICE), a dor lombar é uma condição benigna e não requer exame de imagem, tendo em vista que aproximadamente 11,9% dos pacientes relatam limitações devido à dor lombar por um período maior que um dia, 23,2%, por mais de um mês e 90% com dor aguda recuperam-se em até seis semanas.

Ademais, estudos longitudinais mostram a ausência de associação entre achados em exames de imagem da coluna lombar e cervical com dor, ou seja, pacientes assintomáticos apresentam as mesmas alterações degenerativas, fazendo parte do processo de envelhecimento normal e não associadas à dor.  Esses achados de imagem devem ser interpretados no contexto da condição clínica do paciente (Benson, 2010; Coronado, 2013; Brinjikji W., 2015;  Nakashima, 2015).

Isto posto, exames de imagem precoces tem forte efeito iatrogênico na dor lombar aguda com ou sem radiculopatia, não tendo efeito positivo em medidas de saúde além de aumentar a probabilidade de permanência de incapacidade. Clínicos e pacientes devem ser conscientizados de que, quanto mais precoce o exame de imagem for solicitado, os benefícios são reduzidos e os resultados desfavoráveis são mais prováveis (Graves, 2012; Barbara S. Webster, 2013).

Um estudo com 100.977 clínicos mostrou que ser proprietário de aparelho para diagnóstico em imagem é um forte preditor para solicitação de exames desnecessário para dor lombar e dores de cabeça (Hong S. Arthur, 2017).

Desta forma, exames de imagem não são indicados para a dor lombar aguda, corroborando com as diretrizes de prática clínica internacionais para o manejo da dor lombar quando julgam desnecessária e concentram-se na redução da solicitação precoce de exames de imagem (NICE, 2009; ACR, 2011; NHMRC, 2015), exceto em casos onde o exame clínico detectou fatores físicos que justifiquem a investigação. Esses fatores são conhecidos como “bandeiras vermelhas”, podendo ser representativo de uma grave patologia, e diz respeito a um percentual menos significativo (5-10%) quando comparado as dores inespecíficas (90%).

O Brasil não apresenta dados em relação à custos ao sistema de saúde e consequências aos pacientes em relação aos excessos de solicitações de exames de imagem para a dor nas costas.

Um estudo de Walker et al. estimou o custo de US$ 66 milhões somente no ano de 2001 para solicitações de exames de imagem para dor nas costas na Austrália. Os custos aumentam para US$ 240 milhões quando internações estão envolvidas (Walker BF., 2003). Na Dinamarca, o custo socioeconômico anual da dor nas costas ultrapassa os € 1,6 bilhão (Koch, 2011).

Informações enquanto à tomada de decisão clínica em um ambiente hospitalar e informações direcionados aos clínicos de atenção primária foram efetivas para reduzir o uso de imagens para dor lombar, 36,8% e 22,5% respectivamente. Estas intervenções de baixo custo são potencialmente capazes de reduzir despesas em ambientes hospitalares associadas ao manejo da dor lombar (Hazel J., 2015).

Segundo Eccles M. e colaboradores (2001) os departamentos de radiologia que lidam com atenção primária deveriam aderir as diretrizes para solicitação de exames imagem do UK Royal College of Radiologists visando redução de custos e menor solicitação de exames (overdiagnosis) de imagens para dor lombar e joelhos.

O impacto da não adesão as diretrizes para a solicitação de ressonâncias magnéticas correspondem a uma grande variedade de serviços desnecessários e custosos aos serviços de saúde e risco aos pacientes (Barbara S. Webster, 2014).

Estudos internacionais mostram que aproximadamente 40% das solicitações de exames de imagem são desnecessárias, ou seja, os pacientes não apresentavam nenhuma justificativa para tal procedimento. Os pacientes precisam ser melhores informados enquanto a escolha de um serviço baseado em evidências científicas, livres de riscos, menos custosos aos serviços de saúde e utilizados quando necessário segundo o contexto da condição clínica apresentada (Barbara S. Webster, 2014).

Desta forma, ficam explícitos os benefícios primários ao implementar medidas de prática clínica que visam reduzir os custos com as solicitações desnecessárias de exames imagem para dor lombar, além das reduções de custos secundários, tais como overdiagnosis, overtreatment e litígios trabalhistas.

Por fim, faz-se necessário a implementação de um protocolo padronizado para impedir que os clínicos solicitem imagens apenas para fins de reconforto pessoal, reconforto do paciente ou questões relacionadas a litígio trabalhista (Rego MH, Nagiah S, 2016).